Skip to content

Estratégias para tempos de crise: Economia Criativa

por Marília Sales

A mesa foi composta pelos palestrantes Mike Stubbs (Artista e atual diretor da FACT, Liverpool) e Roberto Gomez de la Iglesia (diretor e membro fundador do Grupo Xabide, Espanha), por Marcelo Araujo (diretor da Pinacoteca do Estado, SP) como mediador e pelos debatedores João Sayad (economista, Secretario da Cultura) e Patricia Canetti (artista, criadora e coordenadora do Canal Contemporâneo).
A mesa discutiu como as mudanças econômicas influenciam as crises dos setores e dos modelos produtivos na arte e na sociedade. Também refletiu sobre a crise financeira e a falta de políticas públicas que acentuam a necessidade de se gerar espaços de produção, serviços e também experiências.

Mike Stubbs apresenta a FACT (Foundation for Art and Creative Technology), que incentiva a experimentação, a provocação e interferências com ações colaborativas – entre instituição, artista e público. A instituição tem a preocupação com o desenvolvimento cultural, econômico e político. O palestrante acredita que em tempo de crise os artistas precisam ser capazes de operar fora das normas e adotar diferentes “estratégias”, reformular as prioridades rapidamente e confiar nos seus instintos e experiência. Mike Stubbs sugere táticas para um tempo de crise: “manter uma tomada de riscos de abordagem; tirar proveito de oportunidades para estimular a criatividade nas pessoas e encontrar maneiras mais rápidas e mais inteligente de fazer as coisas; desfrutar de um senso de urgência. A inovação e colaboração são palavras ocas se não forem impulsionadas pela necessidade e pela pressão externa”.

Os projetos na FACT são desenvolvidos com a idéia de experiência/formação defendida por John Dewey (Art As Experience, 1932). São realizados através do diálogo com artistas, cientistas, filósofos, técnicos e especialistas em ética em busca de uma relação próxima com o público, seja ele especialista ou não, no intuito de ampliar questões para além das aparências. Segundo Stubbs, não podemos separar a arte das condições culturais da sua produção e, mais amplamente, o seu papel dentro da esfera pública.  Há uma preocupação em manter o investimento dessas ações no futuro. E isso foi planejado bem antes da crise de crédito, com a crise o contexto muda.

Sobre a crise financeira 2007-2009, Stubbs comenta que todos já sabiam o que viria graças à ação da mídia. Nossos debates e ações estão em torno da sustentabilidade e da economia. Para ele, os artistas têm sintetizado mundos alcançando diferentes maneiras de olhar para um problema e ampliando horizontes. Neste sentido, enfatiza o papel da prática artística num contexto mais abrangente de produção de conhecimento e desenvolvimento de pesquisa.

Mike Stubbs finaliza a sua fala citando Pipilotti Rist, pois ele acredita que esse pensamento é o que melhor sintetiza as suas idéias: “Art’s task is to contribute to evolution, to encourage the mind, to guarantee a detached view of social changes, to conjure up positive energies, to create sensuousness, to reconcile reason and instinct, to research possibilities and to destroy clichés and prejudices” (Pipilotti Rist, 2008: 208)*.

No segundo momento da mesa, Roberto Gomez de la Iglesia apresenta as seguintes questões: o que esta mudando no mundo da arte e o mundo econômico? Quais são as lógicas de transformações das crises de modelos ? As indústrias culturais e a cultura industrial como estabelecer relações? Como fica os setores criativos e ainda os territórios criativos? Iglesia afirma que é um momento de crise, de mudanças de paradigmas, de transpassar barreiras. Como gestor do projeto Disonancias – uma plataforma para promover a inovação aberta e de colaboração entre artistas e empresas – traz um panorama das parcerias entre artistas e indústrias e construtoras.

Em sua fala, o conceito de valor se determina a partir de um sistema. Para Iglesia, precisamos entender a lógica da economia e estilizá-la acrescentando conhecimento e criatividade. A produção e a inovação social exige a capacidade de gerar experiências, imaginação, capacidade de trabalhar dentro dos limites da periferias – tão comum ao mundo da arte.

Iglesia comenta que as empresas estão em busca de significados e são novos espaços de relacionamento, experiências. Nesse sentido, defende a possibilidade de se pensar em uma relação de mistura entre campos, entre ambientes férteis. O Disonancias é um campo colaborativo dinâmico aberto a qualquer setor. E lida sempre com oposições, com conflitos positivos numa ação relacional com usuário finais, sistemas críticos, de produção, comunicadores …

Para Iglesia, a relação indústria e cultura traz, além, do impacto da cultura no nome do produto interno bruto e na geração de emprego, também na infra-estrutura e grandes eventos. Desse modo, tornou-se um impulso oco à idéia de indústria cultural (“o pouco que eu gosto desse termo!”) e o desenvolvimento da chamada “indústrias criativas” como áreas de atuação “séria”. Tudo isso funciona também como a chave para um novo modelo de desenvolvimento. O palestrante afirma que esta crise é um teste decisivo para o setor e os seus agentes na reformulação da política pública para além dos cortes no orçamento e as adaptações necessárias em termos de sustentabilidade do abastecimento e infra-estrutura cultural. Defende que precisamos analisar a profundidade do discurso sobre criatividade, conhecimento, inovação e novos modelos de desenvolvimento.

O palestrante afirma que Disonancias abre novas áreas geográficas e de negócios e promover redes de cooperação internacional entre as iniciativas que promovam o relacionamento Artes-Ciência-Tecnologia-Empresa (Artsactive, Tillt Europa …). Nesse projeto, quarenta empresas e centros tecnológicos do País Basco e Catalunha têm incentivado a inovação com mais de cinquenta artistas de diversas partes do mundo.

Para finalizar, cita o artista Pavel Büchler: “A sociedade precisa, sem dúvida, de criatividade e visão mais do que necessita de obras de arte. Ela precisa de artistas com suas maneiras de fazer as coisas mais do que precisa das coisas que eles fazem. Ele precisa deles para que eles ‘são’, mas sim que o que ‘fazer’ – e se precisa deles para que eles fazem, então é no sentido em que os artistas são produtores de cultura em vez de artefatos discretos que caracterizam essa cultura “.

Debate

João Sayad abre o debate questionando e refletindo o conceito de economia criativa. Ele concorda com a necessidade do artista em criar valores, renda, emprego,…  Mas, faz uma reflexão sobre uma dupla conseqüência da “invasão do mundo do dinheiro” em toda atividade humana: “no iluminismo a existência das coisas se ligava a Deus, hoje falamos de dinheiro…” E demonstra sua preocupação com a anulação das diferenças, com a globalização, com a relação das parcerias entre artista e a cultura indústrial, que acha importante para alimentar a criatividade. Sayad acredita que a diversidade cultural pode estar ameaçada pelo dinheiro e pela moda.

Patricia Canetti reflete sobre a distribuição da arte no Brasil que ainda está vinculada a uma forma tradicional de circulação de produtos, e pergunta: como fazer acontecer os novos espaços de produção?

Mike Stubbs exemplifica parcerias com empresas que, através da argumentação e da necessidade do mercado empresarial de inovação de produtos, entendem que esse tipo de parceria acrescenta. Ele argumenta que esse tipo de ação está ligada a formação de jovens (ligando a universidades), a uma preocupação de formação de comunidades múltiplas para criar um novo interesse desenvolver o mercado.

Roberto Gomez de la Iglesia responde as questões do João Sayad lembrando que o mundo das artes é o mercado mais especatulativo, mais que o mercado de ações. A cultura tem um peso fundamental nas mudanças de valores. Iglesia demonstra o desejo que os artistas sejam reconhecidos com um profissional da arte que se relaciona com outros profissionais. “A realidade é que a maioria vive em situação precária. Não vê perda em ter possibilidades diferentes, papéis diferentes, atitudes diferente e reconhecimento profissional”.

Por fim,  Iglesia responde a Patricia Canetti enfatizando que precisa existir uma preocupação pela instrumentalização, uma preocupação com novas propostas de trabalhos na indústria, no estado, em conjunto com os artistas. Defende que deve-se entender o mercado, a prestação de serviços dos artistas (falar em prestação de serviço talvez fique mais fácil), a grande economia. E questiona como achar espaços para desenvolver isso? Iglesia termina o debate com as seguintes provocações: precisa haver uma postura colaborativa. Precisa gerar espaços, falta atrevimento. Ainda há artista que fica feliz por está no acervo de um museu, pelo valor simbólico. Falta atrevimento, para convencer o financiamento seja do estado ou privado. Os artistas mostrados aqui estão em rede trabalham juntos. O conflito dá grandes resultados e tem sabor agridoce.

No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: