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Confluências: Arte, tecnologia, indústria, design

por Cecília Bedê

A mesa Confluências: Arte, tecnologia, indústria, design foi composta pelos palestrantes Nelson Brissac (doutor em filosofia, criador do projeto Arte Cidade), Yacine Ait Kaci (artista), pela mediadora Polise De Marchi (arquiteta e urbanista) e pelo debatedor Cícero Inácio Silva (mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP). O debate enfocou a produção artística e sua relação com o mundo industrial e tecnológico.

Nelson Brissac começa a sua apresentação falando das relações da arte com a ciência e a indústria e afirma que nos últimos anos essas relações vêm se tornando cada vez mais instigantes. Através da idéia de que a ciência contemporânea toma os fenômenos de desequilíbrio como principal referência de compreensão da natureza, Brissac acredita que por trás dos sistemas existem dinâmicas intensivas e turbulentas e são esses procedimentos não-lineares que levarão ao equilíbrio

Robert Morris, foi citado pelo palestrante por ter feito considerações importantes sobre a relação dos artistas minimalistas dos anos 60 com a produção industrial. Segundo Morris, estes artistas subordinavam sua criação à lógica das indústrias e utilizavam os materiais por elas pré-determinados. Como contraponto a esse momento, o palestrante cita dois importantes artistas pós-minimalistas: Robert Smithson e Richard Serra que resistiram à idéia de se adequar ao formato da indústria sem deixar de atuar nesse sistema.

Brissac justifica a referência a esses dois artistas mostrando um pouco dos seus processos de trabalho. Richard Serra, trabalhava com aço laminado vindo de grandes siderúrgicas e trabalhava dentro das mesmas. Apesar disso, Serra construiu uma relação diferente com essas usinas, pois pretendia realizar projetos complexos de fabricação: peças extremamente pesadas, geometrias inusitadas, formas totalmente inexistentes para o padrão convencional da indústria. Brissac conta que o próprio artista considerava que a principal característica de seu trabalho era fazer com que as siderúrgicas produzissem as formas como ele queria. Sobre Robert Smithson, o palestrante conta que, sua principal busca era conhecer os processos da natureza e compreender o comportamento dos materiais. E comenta sobre a intensa e complexa relação do artista com a indústria de mineração e o governo, pois todos os seus projetos são conceitualmente relacionados aos princípios geofísicos e operacionais da atividade extrativa.

Ao finalizar, Nelson Brissac destaca uma questão como um grande dilema da atualidade: ainda existem condições para os criadores interagirem experimentalmente com os dispositivos industriais? Segundo Brissac esse é um dilema da arte contemporânea, pois, se ela não criar esses espaços para os artistas produzirem, voltaremos à subordinação da arte à lógica da produção industrial comentada por Morris.

Yacine Ait Kaci é o segundo palestrante e apresenta o projeto Eletronic Shadows, concebido por ele e pela arquiteta e artista Naziha Mestaqui. O Eletronic Shadows é uma série de trabalhos que busca relacionar imagem e espaço, absorvendo experiências da arte, da arquitetura, do design, da ciência e da vida em um conceito que eles denominaram de realidade híbrida.

Yacine coloca que os objetivos do projeto são: transformar os espaços e suas relações com as imagens e trabalhar com interfaces que tornem a tecnologia invisível. Apresenta imagens dos trabalhos e as descreve: são imagens que trabalham o corpo e o espaço como meios tanto reais, quanto virtuais. Essa hibridação é um novo jeito de expandir a imaginação e a percepção, assim acredita a dupla.

Após a projeção de vários de seus trabalhos, Yacine traça paralelos que estão presentes nas instalações: o design se transforma em espaço; a arquitetura se transforma em mídia; a arte é via imaginária sugerida pelas imagens em movimento. São realidades se sobrepondo umas sobre as outras provocando interatividade.

A abertura dos debates é feita por Cícero Inácio Silva que provoca fazendo uma comparação dos aspectos de subordinação explicitados por Nelson Brissac com a subordinação dos artistas à tecnologia e as suas grandes empresas e cita o trabalho feito pelo Eletronic Shadow para a Microsoft. Sua segunda colocação foi: como podemos criar um ambiente acadêmico para se discutir as ideologias dos materiais e dos softwares?

Nelson Brissac responde que temos que entender a evolução tecnológica como um processo com ganhos, que é difícil analisar procedimentos que usam materiais ligados a softwares, e acrescenta  que muitos artistas estão se dedicando e revertendo esses usos, sobretudo artistas que procuram encontrar padrões de desvios nas programações pré-estabelecidas. Brissac ainda acrescenta que os artistas devem buscar o relacionamento com essas grandes empresas e afirma que a França é um ótimo exemplo de não subordinação e que deveríamos olhar a França como um universo de investigação independente que desemboca na criação.

À provocação de Cícero, Yacine responde que o trabalho deles independe da companhia com a qual trabalham e diz que existem duas plataformas de trabalho, o laboratório experimental e a aceitação de propostas que propiciam a ida do trabalho para a realidade. E ressalta que nos dois momentos o importante é a linguagem.

O debate é aberto ao público e Yacine é questionado sobre onde se localiza o relacionamento de seus trabalhos com a matéria. O artista responde que está no interior da  reflexão, tanto o material quanto o imaterial. A projeção é material, a percepção do ambiente é material e as imagens são materiais. O material é híbrido, o espaço é híbrido e a realidade é híbrida.

Em seguida, a mesa é questionada por Patricia Canetti: vejam o que está ocorrendo com o Facebook nesse momento. A mudança da visualização do feed de notícias causou um desarranjo na comunicação de uma comunidade de milhões de pessoas. Quando começava a se ver um uso criativo do diálogo de imagens e trocas de links, a comunicação em tempo real é invadida por ruídos. A Facebook informou que agora os algoritmos estão “curando” a nossa comunicação e nos mostrando os destaques. E Patricia adiciona: considero o Facebook um espaço de criatividade e colaboração importante hoje, mas quando percebemos o controle da Facebook sobre a nossa comunicação, sinto um profundo desespero.

Yacine responde: não sabemos exatamente como é esse espaço, o Facebook é novo e entender que você é parte de uma massa social, muda a força tradicional, é um novo território a ser explorado. Brissac ressalta que isso é vitalidade e que as grandes corporações tendem a se apropriar e eliminar a capacidade de criação, cabe ao artista ou usuário descobrir a resistência.

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