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Redes Sociais, arquivo e acesso

por Ananda Carvalho

A mesa Redes Sociais, arquivo e acesso foi composta pelos palestrantes Rogério da Costa (PUC-SP) e Alberto López Cuenca (pesquisador de redes sociais/autorais, Espanha), pelo mediador Felipe Fonseca (pesquisador de mídia independente e software livre) e pelo debatedor Eugenio Valdes Figueroa (diretor de arte e educação da Casa Daros, RJ). O debate enfocou a produção de conhecimento considerando as configurações da contemporaneidade em relação às redes sociais, a autoria e a propriedade intelectual. Trouxe questões sobre o acesso aos bens culturais e a educação e a configuração geopolítica da rede.

Felipe Fonseca inicia a mesa chamando a atenção para a reconfiguração da questão do acesso, que deve considerar tanto o acesso aos bens culturais como a toda cultura de forma ampla. Comenta também a apropriação rápida, e até anárquica, das rede sociais pelos brasileiros.

A palavra é passada para Alberto López Cuenca, que apresenta os conceitos de sujeito e conhecimento na filosofia para discutir questões da autoria e propriedade intelectual suscitadas pelo advento da internet. Ressalta que a crítica pós-moderna (Roland Barthes, Michel Foucault, Jean-François Lyotard) “não pode se desfazer nem do sujeito excepcional nem do conhecimento original porque levou a cabo apenas seu desmonte teórico”. Dessas teorias surgiram previsões como as de Vilém Flusser, que nos levavam a pensar que a internet parecia oferecer condições para a superação da lógica autoral e original impostas pelo texto.

As novas possibilidades de produção de conhecimento e subjetividade, entretanto, esbarram nas leis de propriedade intelectual e patentes. Para Cuenca, essas leis garantem que o conhecimento e a inovação sejam explorados financeiramente. O palestrante questiona a quem os direitos de autor realmente protegem. E afirma que o preocupante das propostas de reformas para essas leis é que elas atendem apenas a prioridades de uma das partes, sem incluir os interesses dos criadores, dos usuários e do estado. Desse modo, limita-se, a partir de justificativas econômicas, o uso das tecnologias digitais para produção de conhecimento.

Por outro lado, Cuenca afirma que as redes sociais de colaboração evidenciam a condição coletiva do conhecimento. O pesquisador apresenta, também, práticas de colaboração que não aparecem apenas na internet, mas também em outros espaços que privilegiam o intercâmbio, como o Paço das Artes, a Can Xalant e o Centro Cultural da Espanha. Ressalta que os modos de operação dessas instituições não estão definidos apenas por sua estrutura interna, mas também pelas redes de cooperação em que estão inseridas.

Por fim, cita o conceito de organized networks a partir de Ned Rossiter. Refere-se também a Ronaldo Lemos para voltar à questão da propriedade intelectual e defender novas formas institucionais e possibilidades de trabalho em rede que beneficiem a sociedade como um todo. Para Cuenca, é necessária uma visão integral dos direitos de autor e também negociá-los como acesso à cultura.

Rogério da Costa discute o conceito de arquivo de acordo com o contexto da expansão da internet. Segundo o palestrante, não foi apenas a organização das informações que mudou, mas a grande diferença está no “fato de que a ação de cada indivíduo sobre cada informação passou a ser incluída na própria informação, passou a ser ela própria uma metainformação”.

Costa relaciona também como a produção de informação se reconfigura com o advento das redes sociais. O estudo das redes sociais está associado à forma como os indivíduos se interligam. Para isso, cita os conceitos de laços fracos (baseados em relações esporádicas) e fortes (baseados em relacionamentos próximos) de Mark Granovetter. Costa sugere a importância dos laços fracos para o compartilhamento das informações, já que, como não temos contato com estas pessoas, elas podem permitir acesso a informações que desconhecemos.

Neste sentido, o palestrante aponta a transformação das comunidades virtuais em redes sociais. E ressalta que a revolução das novas ferramentas, como Orkut e Facebook, caracteriza que o importante são as pessoas em contato, e não apenas os assuntos. A partir dessa configuração da rede em laços fracos, emerge a possibilidade não só de receber informações, mas principalmente de disseminá-las.

Por fim, Costa apresenta o conceito de sociedade de conhecimento – troca de ideias, cooperação e colaboração – em oposição à sociedade da informação. E comenta que a economia instiga a cooperação e a colaboração na medida em que essas atividades impulsionam a mais valia.

Felipe Fonseca comenta que participou de um encontro de organized networks promovido por Geert Lovink na Holanda. O encontro evidenciou que cada rede se configura de maneira específica e sua forma de organização não pode ser apropriada por outra rede. Assim, por um lado existe a institucionalidade da rede, e, por outro, toda uma informalidade. Fonseca apresenta uma visão crítica sobre as possibilidades alternativas à questão do direito de propriedade intelectual. Cita a polêmica do Creative Commons, que, para ele, trata da obra acabada e sua distribuição e não considera o processo criativo de colaboração como acontece na criação de softwares livres.

Eugenio Valdes Figueroa abre o debate questionado os mapas políticos e a questão da formação a partir do conceito de analfabetos funcionais. Em sua resposta, Alberto López Cuenca comenta que nossa legislação continua sendo moderna e burguesa. Para ele, essa questão se reflete nas redes sociais que exigem uma reforma estrutural da legislação, mas não têm acesso a essa reforma.

Rogério da Costa cita a diferenciação da política e das técnicas de governança proposta por Foucault. Em relação ao analfabetismo funcional, Costa afirma que, a maioria das vezes, as instituições tentam consolidar os seus sentidos em populações que não compartilham das mesmas formas de viver. E pergunta-se como dar voz a uma construção de conhecimento que possa imergir com os elementos dispostos em uma determinada camada da sociedade.

Figueroa reflete sobre o excesso de informação: a internet traz a ideia de informação, o que não necessariamente produz conhecimento. E questiona qual seria a diferença entre informação e conhecimento e o que devemos buscar? Costa diferencia o conceito de informação e de conhecimento a partir de Spinoza e Varela. Mas defende que prefere se preocupar com como as pessoas constroem relacionamentos.

Figueroa questiona o acesso a informação e ao conhecimento e afirma que a internet não conseguiu mudar a situação. O debatedor pergunta: quem continua monopolizando a escritura da historia? Nesse sentido, como nos aproximar da cena artística latinoamericana? Retoma a palestra de Roberto Gomez de la Iglesia para perguntar como as redes  socioculturais podem trazer definições à relação centro-periferia.

Cuenca comenta a geopolítica da produção coletiva de conhecimento a partir do exemplo da Wikipédia em espanhol. Segundo a própria Wikipédia, seu conteúdo é produzido 90% na Espanha e 10% na America Latina; já a proporção de recepção desse mesmo conteúdo é a inversa. E enfatiza que o atual âmbito legal não viabiliza que a internet amenize as diferenças geopolíticas.

Por fim, uma pessoa do público faz um depoimento que problematiza as redes sociais e as novas organizações. Defende a necessidade de encontros presenciais para a construção da confiança. E afirma que quem se beneficia da situação econômica proveniente das redes e da colaboração não é quem está produzindo as soluções.

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